Monthly Archives: March 2011


NOVA BOSSA, BOSSA NOVA 9

O instinto foi ativado pela música suave que saía do violão antigo. Chegou, de repente, uma vontade estranha de extravasar, que se confundia com a imperatividade daquela melodia. Tudo era tão entorpecente que fez com que ela se rendesse e se deixasse levar pela batida mansa que a enfeitiçava. Inebriada. Ela estava totalmente entregue ao momento. A música pedia que ela fizesse diferente, que ela se soltasse e que se transformasse a cada nota, embalada na cadência, viajando a cada batida.

Ele tocava dedilhado. E o violão dedilhado seduz, mesmo sem querer. É mais envolvente, bonito… Quente! O movimento dos dedos lembrava coisas escusas. Coisas que há muito tempo ela não se permitia pensar. Ou fazer. A juventude gritava em seu corpo! Seus poros expeliam o suor do mais sincero desejo. Seu peito fervia e pedia desesperadamente por qualquer carinho furtivo. Ou um olhar diferente, cheio dissimulação. Nem sempre é preciso deixar clara a real intenção. Mas teria de ser aquele olhar que a endeusasse e a devorasse, fazendo sentir ódio e amor. Tesão e rancor. Às vezes a raiva faz crescer a vontade da vontade. Às vezes essa mesma vontade nos guia para o escuro profundo. Um lugar onde você não sabe o que vai ganhar ou perder.

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a carne dos deuses

“E assim eles me mostraram:

Passe dos limites da sua casa, da sua turmaSe comunique sem nenhum tipo de rótuloSupere seus limites, não se conforme com a informação. Busque, atreva, ultrapasse os muros impostos. Atravesse a linha do seu horizonte. Eleve seu espírito como um flash… Sem destino, em todas as direções. Supere seus limites de respiração, de força de bicho. Como um macaco nu que luta incondicionalmente pela vida. Então, sinta mais… Abrace cada sentimento seja ele qual for, como se abraça a quem se ama. E quando precisar, chore. Onde estiver, chore. E um dia, dance… Um dia dance do jeito que você quiser. Sem dúvida, as pessoas que dançam com verdade são pessoas muito mais felizes. E por mais louco que possa parecer, não me ouça. Pois posso ser apenas mais um tijolo daquele muro que você quer… Passar… Simplesmente passar…


meu mundo gira em torno de você? oi? 20

~do começo sem começo até o fim sem fim.

cuido de você, meu bem, você cuida de mim~

kid abelha

eu sou cretina. quem me conhece sabe que eu amo usar essa palavra. apesar do significado usual dela ser ‘uma pessoa de pouca inteligência ou estúpida‘, meu ser cretina vai mais pro lado de ser uma pessoa que faz merda mesmo. ah, e o conceito é meu, pronto e acabou. se não gostou, vá inventar o seu. eu faço merda todos os dias. e sei que é cretinice. eu erro pra caralho. tomo na cara diversas vezes (viaje no sentido que quiser, catso!), mas no fim tento tirar algo de válido daquilo. porque é vida que segue, né? ficar parada chorando as pitangas, sentada no meio fio não vai adiantar de porra nenhuma. me quebrando e continuando. tudo manêro…

comecei esse texto mais pra ilustrar uma lembrança. já que me enxergo agora como há exatos 5 anos: no meio dum redemoinho de gente sem noção. eu – nativa de itabuna/baêa – lá pras épocas de 2005-2006, resolvi mudar de ares. novo trabalho, novas pessoas e turmas a conhecer. e me encantei de automático com uma turminha super alterna e gente boa, de ilhéus. muitas saídas, festinhas particulares, cachaças homéricas, papos descolados. eu tava na crista da onda. pô. quem conhece a galere de ilhéus sabe que eles são mega fechados. seletchividadche. que pra “entrar” no grupo, precisava quase de autorização oficial em três vias e reconhecida firma. mas bem, eu entrei pela porta lateral, entretida de amores por um dos principais elos da turma. e pronto, brisa feliz.

mas… passa tempo e passa tempo, o tempo passou, as relações mudaram e eu vi o outro lado da moeda.

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maktub. est écrit.

tem gente que gosta de apagar o passado. eu não. cada parte, cada momento, cada instante, cada suspiro, cada palavra vivida (sim, eu vivo palavras também)… tudo fica guardado em mim. aqui e em meus infinitos cadernos, agendas, notas. minha memória nunca foi das melhores, talvez por isso eu insista em anotar tudo. como se eu soubesse que um dia vou precisar recorrer a esses escritos para lembrar o que fiz, o que fui e claro – porque não – o que sou. e eu sou isso mesmo… talvez essa seja a representação exata: um monte de rabiscos de lembranças guardadas em cadernos, que vez ou outra ligações [in]esperadas, aparecimentos furtivos e leituras aleatórias, me forçam a lembrar. quando falo ‘forçam’, não entendam como se a lembrança fosse forçada. não, pelo contrário. é natural e gostosa. lembrar é gostoso. nossa… como é bom. e lembrar como você consegue fazer parte de uma pessoa, mesmo não ‘estando’ parte dela… e lembrar que certos elos são tão fortes que o tempo e o espaço nunca conseguirão quebrar. porque poucos sabem a diferença entre os mundos. reconhecer que pertence a outro mundo, não é pra todo mundo. e esse mundo (paralelo, lúdico e etéreo) que só nós conhecemos, onde é permitido ser cheio de metáforas, sinonímias e antíteses (do tipo tudo ao mesmo tempo, agora)… onde não é estranho se revelar uma grande hipérbole de sentimentos, com todos paradoxos psicodélicos e ecléticos imagináveis onde é possível transformar os pequenos *momentos de eternidade* numa verdadeira catarse… é nesse mundo onde vive o meu eu de verdade. e onde podem conviver em harmonia perfeita, o poeta real e o real espectro imaginário.

o que permanece no meio da profusão de lembranças reativadas é a certeza: o roteiro está inacabado. est écrit.


angústia

isso não pode ser considerado sentimento. deveria ser proibido este tipo de dor, que encolhe o coração tanto que não é possível encontrá-lo depois de um tempo. o pior de tudo talvez seja o gosto amargo na boca. quem dera pudesse ser curado com doces, chocolates (ou beijos)… não… enquanto essa dor fina não cessa, enquanto o coração não esquece o motivo da angústia, não há nada a fazer que possa atenuar, diminuir. só esperar, esperar, esperar… até que o tempo trate de fazer passar. até que o destino mude o curso das coisas. até que a vida se encarregue de oferecer uma nova chance de tentar…


skap

Quando você pinta tinta, dessa tela cinza
Quando você passa doce, dessa fruta passa
Quando você entra mãe-benta, amor aos pedaços
Quando você chega nega fulô
Boneca de piche
Flor de azeviche

Você me faz parecer menos só
Menos sozinho
Você me faz parecer menos pó
Menos pozinho

Quando você fala bala, no meu velho oeste
Quando você dança lança flecha, estilingue
Quando você olha molha meu olho que não crê
Quando você pousa mariposa morna, lisa
O sangue encharca a camisa

Você me faz parecer menos só
Menos sozinho
Você me faz parecer menos pó
Menos pozinho

Quando você diz, o que ninguém diz
Quando você quer, o que ninguém quis
Quando você ousa lousa pra que eu possa ser giz
Quando você arde, alardeia sua teia cheia de ardis
Quando você faz a minha carne triste, quase feliz.

;~