NOVA BOSSA, BOSSA NOVA 9


O instinto foi ativado pela música suave que saía do violão antigo. Chegou, de repente, uma vontade estranha de extravasar, que se confundia com a imperatividade daquela melodia. Tudo era tão entorpecente que fez com que ela se rendesse e se deixasse levar pela batida mansa que a enfeitiçava. Inebriada. Ela estava totalmente entregue ao momento. A música pedia que ela fizesse diferente, que ela se soltasse e que se transformasse a cada nota, embalada na cadência, viajando a cada batida.

Ele tocava dedilhado. E o violão dedilhado seduz, mesmo sem querer. É mais envolvente, bonito… Quente! O movimento dos dedos lembrava coisas escusas. Coisas que há muito tempo ela não se permitia pensar. Ou fazer. A juventude gritava em seu corpo! Seus poros expeliam o suor do mais sincero desejo. Seu peito fervia e pedia desesperadamente por qualquer carinho furtivo. Ou um olhar diferente, cheio dissimulação. Nem sempre é preciso deixar clara a real intenção. Mas teria de ser aquele olhar que a endeusasse e a devorasse, fazendo sentir ódio e amor. Tesão e rancor. Às vezes a raiva faz crescer a vontade da vontade. Às vezes essa mesma vontade nos guia para o escuro profundo. Um lugar onde você não sabe o que vai ganhar ou perder.

Ela tinha a plena consciência de onde estava indo, do que estava fazendo. Tinha conhecimento de tudo que estava se passando. Mas não se preocupava. Deixava-se levar. Queria saber de onde vinha esse poder automático, que funcionava como um imã poderoso, deixando-a estática, sem forças para reagir ou recuar. Eis que, de repente, sua roupa começou a incomodar no corpo. Coçava, queimava, atrapalhava. E a música suave continuava seu feitiço, levando-a a caminhos desconhecidos. Ela sorria. Mas não era aquele sorriso despretensioso de quem gargalha com uma piada. Era um sorriso frouxo, demonstrando que ela já não controlava mais seus sentidos. Um pequeno, porém crescente, sorriso de desejo incontido.

Primeiro lhe caiu a alça direita do vestido indiano, deixando nu o ombro tão delicado. Depois a outra alça, deixando à mostra parte do colo farto. O músico não se assustara com nada até então. Sabia que cumpria apenas um papel naquela encenação. Ela implorara para experimentar. Pedira para ser jogada nesse redemoinho de emoções. Ele apenas a alimentava, na vontade que tinha escondida de se conhecer de verdade. Quando o vestido vermelho escorregou pelo corpo esguio e branco, o músico não pôde conter um forte tremor. Mas ela nada sentiu, tão envolvida estava em seu transe. Ele quase não conseguiu continuar sua música. Mas se controlou. Ainda não deveria parar.

Aquela visão impossível o atordoava cada vez mais. O corpo lânguido, de uma brancura tão suave, de pele tão lisa e… E o cheiro… Ah! O cheiro que exalava… Não, só poderia ser impossível! Ela não parava. O feitiço seguia seu curso. Ainda em pé, retirou o último pedaço de tecido fino que cobria suas partes. Agora a nudez era completa. O músico não conseguia acreditar, como ser tão perfeito, estava cercado por dores tão grandes. Como sofria e pagava por erros não cometidos. Como a desolação havia atingido tão profundamente o coração daquela moça.

Como num sonho, ele a imaginou em seus braços. Não num interlúdio sexual. Ela estava ali apenas para receber seu abraço de redenção. E para sentir o carinho, há tanto negado. Sentir que ele acariciava sua nuca nua, beijava os lábios tenros, cheirava a pele macia, com aroma de morangos frescos. Era sonho… Sonho… Era sonho?

Quando ela acordou de seu transe, percebeu que a música parara. Viu-se nua, suada, cansada… Ele a olhava, com a expressão mais suave que lhe era possível no momento. Mas aquele olhar não deixava dúvidas, havia desejo escondido naquele rapaz. Havia uma vontade que ele não gostaria de demonstrar.

Ela se aproximou dele. Não havia mais vergonha. Sua nudez adquirira um estado de pureza incontestável. Tocou o rosto do músico com seus dedos curtos. Acariciou da testa ao queixo, sentindo cada milímetro e gravando em sua memória todas as reentrâncias e cavidades de sua face. Ele a olhou novamente. Não havia mais nada a perguntar nem explicar. Ele assentiu, mostrando que entendera seu silêncio. Estavam prontos para o abraço de redenção. Estavam prontos para continuar aquela história, ao som da mesma música suave que saía do violão antigo.

Brisa Dalilla =20/07/07= 17:40h

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É alma que não se cala; Palavra que tira de tempo; Transbordo de sentimentos... Não é sopro, nem é v e n t o; É livre, leve e solta; É ar em m o v i m e n t o…


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