Monthly Archives: May 2012


verso completo 1

eu deitada na cama, branca, nua, cigarro numa mão, caneta na outra, tentando concatenar aquele verso perdido pra colocar no papel.

você sentado na poltrona, nu, acendendo o cigarro com aquele zippo que eu sempre quis roubar, me olhando concatenar aquele verso perdido pra colocar no papel.

você quem tinha começado aquela poesia e eu me sentia meio insegura em seguir algo que você tivesse começado.

acompanhar sua mente frenética sempre me exigiu um esforço a mais. mas eu gostava de como seu alter-ego me fazia pensar.

ele, que conseguia ser mais que nós juntos, apenas porque nos juntou. ele, que podia dar as cartas como bem quisesse.

joguei no papel apenas metade do verso e você fez cara feia. tinha que ser completo. uma lágrima rolou e eu só conseguia pensar que dali a alguns dias você não estaria mais entre minhas pernas.

eu deitada na cama, branca, nua, cigarro no fim, caneta e papel jogados de lado e você completando meu verso com a única coisa que importava naquele momento.

você.


janela de vazio

era estranho que ela se visse mais uma vez presa naquela mesma folha de papel em branco. há poucos dias o seu mundo era uma aquarela tão linda, tão cheia de cores! mas vai ver que o lugar dela fosse mesmo lá, não é? uma folha de papel sem nenhuma linha, nem cor, nem desenho, nem nada. pra quê cor, quando se tinha tanto vazio a ser visto? uma janela de vazio.


rascunho

nunca fui boa em desenhar rostos, mas o seu eu queria gravar de alguma forma. dali a alguns meses você estaria sei lá onde e eu ia ficar aqui apenas com lembranças meio perdidas. e eu sou péssima com isso de lembrar… logo você ia virar um cheiro, sabe? aquele cheiro particular que quando eu sentisse em alguma outra pessoa, me faria lembrar de tudo. e eu queria lembrar é de seus traços, as cavidades e reentrâncias de cada milímetro da sua pele, sua textura… eu queria mais. eu queria mais desde sempre, claro, óbvio, ok. mas “mais” era o que você não podia dar e eu sabia. eu sabia e ainda assim insistia que deveria lembrar de você de alguma forma. rascunhei uns poucos traços com um grafite velho que eu carregava na bolsa, numa folha vazia do caderno que você me deu. sempre foi tão fácil me agradar, né? acho que era mais por você saber exatamente o que fazer pra me agradar. ou saber me ler. saber que aquele espacinho onde eu guardava meus pensamentos era tão ou mais importante que qualquer coisa. era fácil me ler simplesmente porque qualquer coisa que eu escrevesse era um sinal. eu não gosto de desperdiçar palavras. nunca gostei de dizer coisas em vão. mas só você sabia disso. e cada traço a mais que eu desenhava, parecia dizer exatamente isso. exatamente o que eu deveria rascunhar, pra lembrar e remoer quando você partisse: eu nunca encontraria alguém que me descobrisse mais que você, nessa vida.


acordes da urgência 1

teu beijo às vezes é ânsia,e a vontade é uma constância.
teu beijo provocativo é forte,
mesmo assim, não é querer de morte…
nunca foi desejo finalizado,
nem nada tão arquitetado.teu beijo sôfrego,
quando quente, derrete na minha boca.
teu beijo urgente,
só funciona para a minha exagerada falta de urgência.
e acaba por combinar com o meu,
independente de como meu beijo for…

mas estar preso na minha magia,
é ter que crer na fantasia
de se ter um ao outro,
mesmo assim ser livre, leve e solto.
é estar amarrado pela força do beijo,
pela união da urgência ao desejo,
mesmo sendo duas almas em estágios distintos.

diferença nem sempre é incongruência,
mas a inconstância faz parte de mim.
vou e volto, como quero e quando quero,
espero sempre ser assim.
e quero que aprenda comigo,
pois muito tenho a lhe ensinar,
como descobrir os acordes certos,
quando a melodia gêmea chegar.
e saber que mesmo em tons diferentes,
a música toca em qualquer lugar.

brisa dalilla =06/06=



detrás

você prende meus pulsos atrás do pescoço e eu não sei como começar a te contar toda a verdade. mesmo assim, começo. temos sempre que começar de algum lugar, não é?

eu não sou nada disso que você vê, muito menos o que digo. eu não sei exatamente de que matéria fui feita pra ser assim estranha. enxergo significados em coisas que não deveriam e tenho toda a gama de maus sentimentos existente dentro do peito.

não sei ser amada. não sei me deixar ser amada. destruo cada possibilidade disso em segundos, como se – sim – isso fosse o normal a ser feito, mesmo antes tendo criado uma realidade paralela onde tudo aquilo poderia quem sabe funcionar.

não sei fazer carinho. tudo que faço é meio no automático, como se aquilo fosse coisa trivial normal banal. e no fim das coisas sei que não é. sei o que significa para as outras pessoas. eu apenas não dou a mínima, não ligo. se sinto agora, não quer dizer que nos próximos cinco minutos vou continuar a sentir. nem quer dizer que eu não volte a sentir. entendeu? nem eu.

entendo minha vida – ou seja lá o que isso realmente for – como um filme. e eu ali, meio perdida no roteiro, tento transformar a meu bel prazer tudo em drama. vezenquando uma comédia, porque eu devo ter um pouco disso enfim. mas no final é tudo muito denso pra ser analisado por qualquer um.

você solta meus pulsos detrás do pescoço e eu não sei como terminar de te contar toda a verdade. então eu só te beijo.


o dia em que eu mais senti saudades da bahia 3

“brisa, um dos apreciadores tá bem doente…”. foi assim que eu recebi a notícia de que marlon tava mal no hospital lá na bahia. mas eu sempre tenho aquele espírito de “ah, que é isso, vai ficar tudo bem…”. e era pra ficar, né? menino novo, cheio de coisa pra fazer e viver ainda. e pá, no outro dia recebo a notícia de que ele faleceu. deu um nó na garganta tão cretino que eu não consegui me mover.

daí eu me sinto na obrigação de contar pra vocês um pouco mais dessa turma, pelo menos da forma como eu a vi se formar, que começou a se juntar no colégio, ainda nos idos da 6ª série… vocês tem noção de quantos anos tem isso? não sei, sou ruim de conta desde aquela época. solange, professora de matemática que o diga. o que começou com a reunião de um ou dois gatos pingados numa sala de aula no colégio galileu virou uma coisa tão maior que todos nós, que nem fica difícil tentar explicar.

vamos começar pela 7ª série e de como eu entrei nessa galera, que é mais interessante. no começo do ano, depois de uma briga homérica com tássio, a diretora me mudou de sala, da 7ª A para a 7ª B. e o que ele fez? óbvio que foi o que qualquer pessoa faria: pediu pra ser mudado de sala também e me disse “é o destino que quer juntar a gente, brisinha.”. pode uma cara de pau, dessas? bom, mas daí surgiu o elo principal, porque era em torno de tássio que todo mundo se juntava.

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bate paper 3

– frio aqui, heim?

– nem tanto… tô sentindo até vontade de correr pelada no meio da rua.

– QUE?

– brincadeira, menino. relaxe aí.

– ah, tá.

– mas você tava falando do frio. quer puxar assunto do nada?

– com você, sempre.

– então vamo falar na real. quer puxar assunto, fala a verdade então.

– eu quero você.

– ah, mas isso eu já sei ué…

– agora fiquei tímido.

– uma porra que ficou tímido. não guenta nem um puxão assim, é? dá pra ficar perto de mim assim não.

– mas porque você é tão bruta?

– é meu jeitinho.

– eu gosto do seu jeitinho.

– então porque reclama?

– quando a gente gosta a gente reclama de muita coisa.

– mas se tu gosta é pra gostar do pacote todo, né não?

– é verdade.

– tá disposto a receber o pacote?

– ficou estranha essa frase.

– é, nos dias ímpares eu sou estranha. nos pares eu sou chata. e segue a vida.

– eu te amo.

– pare de falar besteira e me beije logo, rapaz.