dispensada de salvar universos

Completude x Falta: resposta dúbia a uma teoria “tríbia”

Em homenagem aos devaneios de Diva, Edgard e Karim

Sempre acreditamos (e essa é uma crença pessoal) que o ser humano nasce completo. Tudo que precisa/necessita para ser, já traz consigo. Cabendo às suas experiências com o universo exterior e, principalmente, com o universo interior (muito mais vasto e desconhecido que universo exterior), trazerem-lhe a consciência do que é e do que já existe em si, através das novas, múltiplas, diversas e variadas descobertas destes dois universos.

Podemos chamar essas descobertas de experiências. O ser humano existe para experimentar. E vivemos do prazer de experimentar todos os gostos das nossas experiências. É isso que dá sentido à vida! Não importa se as experiências são agradáveis ou desagradáveis, ou a impressão que deixam gravadas em nossos “eus”. Importa mesmo é o sentimento de que a cada instante estamos sentindo, vivenciando e provando o gosto do novo. Resumindo: estamos em movimento.

O ser humano já nasce completo (repetimos: crença pessoal). Nada lhe falta e tudo lhe pertence. Não só daqueles dois universos, mas também daqueles que pelas nossas próprias limitações não conseguimos enxergar. Se é que conseguiremos um dia…

Não buscamos algo no quê ou quem para nos completar. Muito pelo contrário, nos buscamos no quê ou quem para ter a sensação de completude, que nunca chegaremos a ter. Até porque o algo é indefinido e não pode ser mensurado.

Quantos percentuais, quantas medidas precisaremos criar para estabelecer o tamanho das nossas necessidades, do que julgamos precisar?! É impossível medir, mensurar o que não se pode limitar. O limite do ser humano é o corpo. Nem a sua mente estabelece fronteiras…

Não importa, numa dimensão infinda e imensurável, discutir se o que falta é o que completa, ou se existe em si analogias ou diferenças. A beleza não está no estabelecimento de conceitos ou definições estanques, mas na busca dos novos conceitos e das novas definições que sempre estarão a surgir, para adequar àquelas mesmas necessidades a idéia de SATISFAÇÃO, que também não pode ser medida ou mensurada.

Acreditamos (idem: crença pessoal) não existir um ser humano plenamente satisfeito, porquanto ignorante da sua completude, e diante da sua eterna busca de encontrar no quê ou em quem, a parte que lhe completa. E apesar de tentarmos sempre nos referir à busca do quê, sempre acabamos por concluir que – seja o que achamos que nos falta, seja o que achamos que nos completa – nunca será encontrado no quê, mas em quem. O ser humano gosta de ser pessoal, gosta do quem. O quê apenas satisfaz algumas das suas necessidades, porém não tem o condão de lhe satisfazer plenamente, porque sempre se procura a resposta no quem, no outro alguém.

Há muito tempo nos convencemos de que o amor não é uma união e sim uma intersecção. Na união há sempre uma mistura, homogênea ou heterogênea, que não nos agrada. Se homogênea, perdem-se as identidades. As duas partes tornam-se uma única parte, indivisível e indissociável. Mas perdem-se as identidades e a beleza das diferenças. Qual a beleza do igual e do perfeito? Monótono, não tem graça! A graça está nas diferenças…

Se a mistura é heterogênea, são tantas as diferenças que a convivência com elas se torna insuportável! E aí também as diferenças perdem a graça. Dá para perceber como tudo é relativo?! Depende das nossas lentes. Da forma como enxergamos cada nova realidade, cada nova experiência…

Não existirá esforço, humano ou sobre humano, capaz de criar uma união completa. A união completa é um transbordo, e tudo que transborda gera excesso. Completo + completo = transbordo. Melhor explicando: o que acontece quando colocamos um copo cheio d’água num outro copo cheio d’água??? Faça esse teste em casa!

Daí que não é preciso encher o cheio que já está cheio, apenas para satisfazer a nossa pseudo-necessidade de nos completar com o que não nos falta. O transbordo é que dá a sensação de que algo nos falta. E não poderia ser diferente!!! Porque no transbordo perdeu-se parte do que já estava completo. O ser humano se faz incompleto, porque a sensação da falta não é do que falta, mas do excesso que se perdeu no transbordo.

Falemos agora da intersecção. Com ela nada se perde, tudo se adequa. As partes iguais se interagem, mantendo a identidade diversa de cada um dos objetos. Nela se mantém a integridade da beleza do todo. Não há transbordo, mas uma sobreposição de identidades, resguardada a beleza das diferenças e cada uma das distintas identidades.

Então, nem se fale em buscar o que lhe falta no quê ou em quem. Não se busca ter o que já se tem. A busca é pelo conhecimento do “tido” desconhecido; do reflexo do quê ou de quem; da parte que se pensava faltar, mas que efetivamente já existia. O ser humano não procura o que lhe falta no outro. Procura a si mesmo no outro. Procura o seu reflexo. O reflexo do que sempre foi completo…

Pedro Camena e Brisa Dalilla =31/08/08=

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