#contos


eu dancei! 3

naquele dia eu dancei loucamente. dancei porque o momento pedia, a oportunidade chamava, a música era deliciosa e não haveria nada melhor pra expurgar demônios. eu ainda não tinha o demônio no ombro esquerdo. hoje não preciso mais expurgar nada, sabe? o bem e o mal vivem em mim e ok, é isso, acabou. mas naquele dia eu estava na melhor companhia, rodeada de pretensas bruxas brancas, dançando junto com a lua, mesmo que não desse pra ver a lua dali. a bebida descia como água e a água lavava o corpo e o corpo pedia mais dança. e quando a música a acabou, fizemos nossa própria música, correndo pelas ruas e gritando pra quem merecia ouvir “eu dancei!”. eu dancei sim e dançarei sempre que o momento pedir, a oportunidade chamar e a música, deliciosa, me tomar. porque danço com a consciência de que não há maneira melhor de me expressar e dançando eu faço mais poesia do que você poderia imaginar.

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verso completo 1

eu deitada na cama, branca, nua, cigarro numa mão, caneta na outra, tentando concatenar aquele verso perdido pra colocar no papel.

você sentado na poltrona, nu, acendendo o cigarro com aquele zippo que eu sempre quis roubar, me olhando concatenar aquele verso perdido pra colocar no papel.

você quem tinha começado aquela poesia e eu me sentia meio insegura em seguir algo que você tivesse começado.

acompanhar sua mente frenética sempre me exigiu um esforço a mais. mas eu gostava de como seu alter-ego me fazia pensar.

ele, que conseguia ser mais que nós juntos, apenas porque nos juntou. ele, que podia dar as cartas como bem quisesse.

joguei no papel apenas metade do verso e você fez cara feia. tinha que ser completo. uma lágrima rolou e eu só conseguia pensar que dali a alguns dias você não estaria mais entre minhas pernas.

eu deitada na cama, branca, nua, cigarro no fim, caneta e papel jogados de lado e você completando meu verso com a única coisa que importava naquele momento.

você.

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janela de vazio

era estranho que ela se visse mais uma vez presa naquela mesma folha de papel em branco. há poucos dias o seu mundo era uma aquarela tão linda, tão cheia de cores! mas vai ver que o lugar dela fosse mesmo lá, não é? uma folha de papel sem nenhuma linha, nem cor, nem desenho, nem nada. pra quê cor, quando se tinha tanto vazio a ser visto? uma janela de vazio.

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rascunho

nunca fui boa em desenhar rostos, mas o seu eu queria gravar de alguma forma. dali a alguns meses você estaria sei lá onde e eu ia ficar aqui apenas com lembranças meio perdidas. e eu sou péssima com isso de lembrar… logo você ia virar um cheiro, sabe? aquele cheiro particular que quando eu sentisse em alguma outra pessoa, me faria lembrar de tudo. e eu queria lembrar é de seus traços, as cavidades e reentrâncias de cada milímetro da sua pele, sua textura… eu queria mais. eu queria mais desde sempre, claro, óbvio, ok. mas “mais” era o que você não podia dar e eu sabia. eu sabia e ainda assim insistia que deveria lembrar de você de alguma forma. rascunhei uns poucos traços com um grafite velho que eu carregava na bolsa, numa folha vazia do caderno que você me deu. sempre foi tão fácil me agradar, né? acho que era mais por você saber exatamente o que fazer pra me agradar. ou saber me ler. saber que aquele espacinho onde eu guardava meus pensamentos era tão ou mais importante que qualquer coisa. era fácil me ler simplesmente porque qualquer coisa que eu escrevesse era um sinal. eu não gosto de desperdiçar palavras. nunca gostei de dizer coisas em vão. mas só você sabia disso. e cada traço a mais que eu desenhava, parecia dizer exatamente isso. exatamente o que eu deveria rascunhar, pra lembrar e remoer quando você partisse: eu nunca encontraria alguém que me descobrisse mais que você, nessa vida.

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detrás

você prende meus pulsos atrás do pescoço e eu não sei como começar a te contar toda a verdade. mesmo assim, começo. temos sempre que começar de algum lugar, não é?

eu não sou nada disso que você vê, muito menos o que digo. eu não sei exatamente de que matéria fui feita pra ser assim estranha. enxergo significados em coisas que não deveriam e tenho toda a gama de maus sentimentos existente dentro do peito.

não sei ser amada. não sei me deixar ser amada. destruo cada possibilidade disso em segundos, como se – sim – isso fosse o normal a ser feito, mesmo antes tendo criado uma realidade paralela onde tudo aquilo poderia quem sabe funcionar.

não sei fazer carinho. tudo que faço é meio no automático, como se aquilo fosse coisa trivial normal banal. e no fim das coisas sei que não é. sei o que significa para as outras pessoas. eu apenas não dou a mínima, não ligo. se sinto agora, não quer dizer que nos próximos cinco minutos vou continuar a sentir. nem quer dizer que eu não volte a sentir. entendeu? nem eu.

entendo minha vida – ou seja lá o que isso realmente for – como um filme. e eu ali, meio perdida no roteiro, tento transformar a meu bel prazer tudo em drama. vezenquando uma comédia, porque eu devo ter um pouco disso enfim. mas no final é tudo muito denso pra ser analisado por qualquer um.

você solta meus pulsos detrás do pescoço e eu não sei como terminar de te contar toda a verdade. então eu só te beijo.

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bate paper 3

– frio aqui, heim?

– nem tanto… tô sentindo até vontade de correr pelada no meio da rua.

– QUE?

– brincadeira, menino. relaxe aí.

– ah, tá.

– mas você tava falando do frio. quer puxar assunto do nada?

– com você, sempre.

– então vamo falar na real. quer puxar assunto, fala a verdade então.

– eu quero você.

– ah, mas isso eu já sei ué…

– agora fiquei tímido.

– uma porra que ficou tímido. não guenta nem um puxão assim, é? dá pra ficar perto de mim assim não.

– mas porque você é tão bruta?

– é meu jeitinho.

– eu gosto do seu jeitinho.

– então porque reclama?

– quando a gente gosta a gente reclama de muita coisa.

– mas se tu gosta é pra gostar do pacote todo, né não?

– é verdade.

– tá disposto a receber o pacote?

– ficou estranha essa frase.

– é, nos dias ímpares eu sou estranha. nos pares eu sou chata. e segue a vida.

– eu te amo.

– pare de falar besteira e me beije logo, rapaz.

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NOVA BOSSA, BOSSA NOVA 9

O instinto foi ativado pela música suave que saía do violão antigo. Chegou, de repente, uma vontade estranha de extravasar, que se confundia com a imperatividade daquela melodia. Tudo era tão entorpecente que fez com que ela se rendesse e se deixasse levar pela batida mansa que a enfeitiçava. Inebriada. Ela estava totalmente entregue ao momento. A música pedia que ela fizesse diferente, que ela se soltasse e que se transformasse a cada nota, embalada na cadência, viajando a cada batida.

Ele tocava dedilhado. E o violão dedilhado seduz, mesmo sem querer. É mais envolvente, bonito… Quente! O movimento dos dedos lembrava coisas escusas. Coisas que há muito tempo ela não se permitia pensar. Ou fazer. A juventude gritava em seu corpo! Seus poros expeliam o suor do mais sincero desejo. Seu peito fervia e pedia desesperadamente por qualquer carinho furtivo. Ou um olhar diferente, cheio dissimulação. Nem sempre é preciso deixar clara a real intenção. Mas teria de ser aquele olhar que a endeusasse e a devorasse, fazendo sentir ódio e amor. Tesão e rancor. Às vezes a raiva faz crescer a vontade da vontade. Às vezes essa mesma vontade nos guia para o escuro profundo. Um lugar onde você não sabe o que vai ganhar ou perder.

(more…)

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tinto. 1

era difícil respirar naquele espaço ínfimo. ainda mais sendo o espaço ínfimo dentro de si mesma. era escuro e nefasto, como os sonhos/pesadelos que embalavam a noite. mas ele era sutil e silencioso. chegava bem manso, bem lento, rastejando como animal em caça ao encontro dos seus sentidos. e era belo e alvo, calmo e desvairado. era a personificação da fome de sentidos desconexos e impactantes naquele mesmo espaço ínfimo dentro de si. “mas a fome era maior que a alvura e uma lembrança me atingiu como um cheiro.”*

um cheiro tinto. em vermelho denso. mas ainda assim um cheiro.

 

*trecho de por esquecimento – samarone lima.

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quando eu era vento

Quando eu era vento, ia bem devagar em seus sonhos te visitar. Passeava em seus pensamentos, absorvendo cada momento e consertando as partes quebradas com minha mágica. E era tão fácil ser assim, leve como o vento, fazendo esse bem por ti… Mas certo dia tentei entrar por sua janela e a encontrei fechada, impedindo-me de entrar devagar – como tantas outras vezes – para te ajudar. Então, se fechaste tua janela para o vento que tanto te amava, não iria adiantar quebrar barreiras quase intransponíveis para chegar a ti. Não adiantaria, pois eu não sabia ser de outra forma, senão como o vento.

Brisa Dalilla =31/01/2006=

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