poesias


lembrar dói

lembrar de quando a poesia escorria pelos dedos e se entranhava em outros dedos por onde também escorriam poesia, dói.

é uma dor fina, porque as palavras estão lá, mas não se encontram mais. foram condenadas à liberdade eterna, a um limbo onde a escrita não é mais etérea, a navegar soltas no espaço sem se tocar.

e o que me resta é lembrar.

mas lembrar dói.

Lisboa, Março 2021

é proibido parar de gozar 5

porque ser vivo é ser etéreo. é brincar de ser invencível e de lançar o corpo no turbilhão das vontades não aplacadas. é querer sorver cada centímetro de alma pela boca; tocar o coração com os dedos; acariciar o tempo, beber o sorriso, congelar o momento. é sambar os desejos, batucar paixão com saudade e misturar pecado com coisas sem nexo. é despejar sentimento líquido na corredeira do tempo e cantar a música de quem segue só seus instintos. é pegar a regras estúpidas do mundo e jogar ladeira abaixo. e se não tiver ladeira, fazer das regras pipa. para voar, dançar, planar… daquele jeito livre e desobediente das coisas que se envolvem no vento. num espaço longínquo onde ninguém conseguirá derrubar ideias diferentes, pois cortar vôo das coisas livres não será permitido. é proibido deixar de sentir. é proibido parar de exagerar. é proibido se podar. é proibido se impedir de amar. é proibido parar de gozar.